sábado, 1 de setembro de 2012

As Três Pontas do Amor

Katie encolheu-se dentro do casaco, ouvindo o ressoar das próprias botas contra o asfalto. No ritmo que ia, desconfiou que pudesse alçar vôo a qualquer instante, como um dos pássaros exóticos que agora se viam empalhados nos museus de taxidermia.  Não que fizesse diferença. Quando alvo e caçador dividem a mesma identidade, não importa o quão rápido se corra ou que caminhos você decida seguir. Por isso, ela fez o mesmo trajeto de sempre, contornando a Av. Bolton e entrando na esquina da rua Lexton.

Sentia-se como a protagonista desajustada de um dos clipes da MTV. Quem visse a garota, correndo por aí com todo aquele rímel e as meias grossas pretas sob a saia de um palmo, não chegaria a pensar que estivesse de coração partido, sofrendo de um amor miserável. Amor não correspondido, amor platônico. Amor proibido. Tantas formas de amar, todas tão injustas. E todas, exatamente todas, se aplicavam inteiramente a ela.

Há algum tempo, Katie chegara à conclusão de que as noites de sábado eram boas para se descobrir coisas. Fotografias amareladas da infância, filmes de terror no PayPerView, comida exótica no tailandês da rua principal. No entanto, naquela noite, descobrira uma coisa sobre si mesma da qual não gostara nem um pouco. Era exatamente disso que estava fugindo agora.  Correndo para longe dos pensamentos que ameaçavam confrontá-la caso a rachadura dentro dela se abrisse.

Sua casa ficava a apenas dois quarteirões do cinema, mas, de repente, o percurso parecera alongar-se em uma centena de voltas, chocando-se umas contra as outras na intenção de fazer a garota pensar sobre o rumo daquela noite.

Poderia ter olhado para trás. Poderia ter acenado e, com certeza, Abbey e Nick acenariam de volta, com suas mãos firmemente entrelaçadas. Um ‘dar as mãos’ romântico faz sofrer quase tanto quanto um beijo ao qual não se tem direito.

Katie deixou escapar um soluço. Depois outro. E então, enfim, estava chorando, deixando que os pensamentos ruins corressem livremente ao redor dela, tão depressa que suas pernas não poderiam alcançá-los.

Abbey e Nick, perfeitos um para o outro, sempre sussurrando em seus sorrisos de canto e vozes melosas. Mas eram os olhos que despertavam em Katie aquela inveja amarga e contida. Os olhos de Nick pareciam dizer à Abbey coisas que Katie não era capaz de entender. E como poderia? Para ela, ele apenas sorria com os lábios como para todos os outros. Aqueles olhos, escuros e sedentos de desejo, estavam reservados somente para a sua Abbey, que, a cada sorriso insunante, a cada palavra carinhosa, a cada beijo apaixonado, partia um pouco mais o coração da melhor amiga.

E Katie se perguntava, vez ou outra, no maremoto confuso de sentimentos que implodiam dentro dela, se Abbey, sempe tão esperta e boa nos jogos de charada, saberia que partilhavam as duas um amor do qual somente uma se sentia obrigada a desistir.

domingo, 26 de agosto de 2012

Um recorte


"Eu tenho problemas... problemas de relacionamento. Não gosto de pessoas. Prefiro frequentemente ficar no meu canto e não relaxo na presença de estranhos. Odeio quando me dizem o que tenho que fazer, e odeio mais ainda quando tentam me obrigar. Não sou uma pessoa fácil. Eu sou explosiva. Quando não para fora, para dentro. E quando me acabo em cacos, posso terminar levando você comigo. Eu magôo, mas também sou frágil. Sou de fogo com ascendente em fogo, e isso é difícil de levar. Sou mulher, mas nem sempre sou de vênus. Quando falo, olho nos olhos. Se não olhar... bem, não se preocupe. Talvez eu goste mais de você do que pretendo confessar."

- Rebecca Santiago

A Flor de Sofia

"Sempre fui tratada como um instrumento. Para meus pais, Anabelle e Balthazar, ter uma filha com dons sobrenaturais era como conceber água em pleno deserto. Uma mina de ouro. Na visão de Arthur, meu noivo escolhido, eu era a salvação das terras de Greenwich.

Quando deixei o meu povo, carregava comigo um cantil de água ainda fresca. E toda a minha coragem. Mas não parecia o suficiente. O Morro de Dante ficava a quatro mil léguas de distância da vila e, de acordo com a lenda, a Flor de Sofia aguardava ser colhida por aquela que libertaria Greenwich da fome e miséria que assolavam todo o reino. Bem, eu sabia que era essa eleita. No momento em que nasci, meus pais haviam selado o meu destino através de um pacto.

Saber disso não tornava nada mais fácil, pelo contrário. Eleita ou não, o morro ainda era alto e minha vista turva pelo nevoeiro. Eu ainda precisava escalar até o seu topo.

Ou morrer tentando."

- Rebecca Santiago

A Loja


"A loja abriu no primeiro dia de verão. Uma construção antiga em tons de cinza não atrai muitos olhares no centro da cidade, mas eu parecia movida a seguir adiante e desvendar aquele pequeno e ordinário mistério dos dias comuns. Era o meu primeiro ano sem o homem que, acreditei, fosse partilhar o resto da minha vida. Eu ainda não entendia aquilo muito bem. Talvez Deus tivesse outros planos, carregando-o tão cedo para longe de mim.

Não era uma loja conveniências, afinal, uma livraria ou um starbucks. Era algo melhor do que isso e mais improvável. Uma loja de discos de vinil no meio do caminho merecia uma pausa entre uma pedra ou outra, e meus infinitos tropeços daquelas férias.

Então, eu entro, empurrando a pesada porta de ferro que range a minha chegada. De repente, meu coração é como uma estrela, brilhante e suspensa dentro do peito. Eu o vejo. Ele está lá... tão alto e belo nos jeans lavados e polo branca, que eu preciso reter o grito até transformá-lo em um gemido preso na garganta. Como pode ser possível? Seus olhos são verdes agora, sua pele um pouco mais clara sem a incidência do sol. Mas estou tão certa do que sinto, que o que eu vejo é quase uma ilusão, menos real do que aquilo que não posso tocar."


- Rebecca Santiago

Ciranda Mista nasceu!

Boa noite!

Sei que é muito difícil divulgar um blog, portanto vou tratar este aqui quase como um diário, algo bem particular e íntimo, que pretendo repassar apenas para os meus amigos. Se esbarrarem com o meu blog na net e quiserem participar, serão bem-vindos. Mas o cansaço me impede de sair por aí suplicando por "uma olhada" ou "uma passadinha" no Ciranda Mista. Quem sabe, depois. Por ora, não. Sei também que nem sempre temos ânimo para comentar os posts alheios, mas peço que não façam isso, e ajudem a estimular minha criatividade para escrever cada vez mais.

Bem, há algum tempo descobri que preciso de um espaço para os meus textos, um cantinho onde eles possam descansar e onde possam respirar também. Palavras são 'vida', especialmente as escritas. Porque elas não se perdem se você souber guardá-las. O Ciranda Mista vai ser o meu canto, criado e preparado para eu expor qualquer criação que possa surgir de repente.

Meu nome é Rebecca e sempre tive o sonho de ser escritora. Foi a primeira profissão que pensei em seguir, aos seis anos de idade, quando comecei com alguns contos de horror no recreio entre as aulas. Agora escrevo mais seriamente. Ou não (ainda amo os contos de horror rs). Mas já se vão vinte e um anos de jornada e escrita, às vezes hábil, às vezes desarticulada. Mas sempre muito, muito apaixonada.

Espero que vocês descubram esse espaço, e desejo sinceramente que se sintam a vontade.

Sejam muito bem-vindos,
Rebecca Santiago.