Katie encolheu-se dentro do casaco, ouvindo o ressoar das próprias botas contra o asfalto. No ritmo que ia, desconfiou que pudesse alçar vôo a qualquer instante, como um dos pássaros exóticos que agora se viam empalhados nos museus de taxidermia. Não que fizesse diferença. Quando alvo e caçador dividem a mesma identidade, não importa o quão rápido se corra ou que caminhos você decida seguir. Por isso, ela fez o mesmo trajeto de sempre, contornando a Av. Bolton e entrando na esquina da rua Lexton.
Sentia-se como a protagonista desajustada de um dos clipes da MTV. Quem visse a garota, correndo por aí com todo aquele rímel e as meias grossas pretas sob a saia de um palmo, não chegaria a pensar que estivesse de coração partido, sofrendo de um amor miserável. Amor não correspondido, amor platônico. Amor proibido. Tantas formas de amar, todas tão injustas. E todas, exatamente todas, se aplicavam inteiramente a ela.
Há algum tempo, Katie chegara à conclusão de que as noites de sábado eram boas para se descobrir coisas. Fotografias amareladas da infância, filmes de terror no PayPerView, comida exótica no tailandês da rua principal. No entanto, naquela noite, descobrira uma coisa sobre si mesma da qual não gostara nem um pouco. Era exatamente disso que estava fugindo agora. Correndo para longe dos pensamentos que ameaçavam confrontá-la caso a rachadura dentro dela se abrisse.
Sua casa ficava a apenas dois quarteirões do cinema, mas, de repente, o percurso parecera alongar-se em uma centena de voltas, chocando-se umas contra as outras na intenção de fazer a garota pensar sobre o rumo daquela noite.
Poderia ter olhado para trás. Poderia ter acenado e, com certeza, Abbey e Nick acenariam de volta, com suas mãos firmemente entrelaçadas. Um ‘dar as mãos’ romântico faz sofrer quase tanto quanto um beijo ao qual não se tem direito.
Katie deixou escapar um soluço. Depois outro. E então, enfim, estava chorando, deixando que os pensamentos ruins corressem livremente ao redor dela, tão depressa que suas pernas não poderiam alcançá-los.
Abbey e Nick, perfeitos um para o outro, sempre sussurrando em seus sorrisos de canto e vozes melosas. Mas eram os olhos que despertavam em Katie aquela inveja amarga e contida. Os olhos de Nick pareciam dizer à Abbey coisas que Katie não era capaz de entender. E como poderia? Para ela, ele apenas sorria com os lábios como para todos os outros. Aqueles olhos, escuros e sedentos de desejo, estavam reservados somente para a sua Abbey, que, a cada sorriso insunante, a cada palavra carinhosa, a cada beijo apaixonado, partia um pouco mais o coração da melhor amiga.
E Katie se perguntava, vez ou outra, no maremoto confuso de sentimentos que implodiam dentro dela, se Abbey, sempe tão esperta e boa nos jogos de charada, saberia que partilhavam as duas um amor do qual somente uma se sentia obrigada a desistir.
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